Este blog é hoje encerrado oficialmente
Esgotou-se a ficção, chegou o tempo da autobiografia. É a capitulação à vertente diarística, já que quanto mais pessoal maior costuma ser a reacção do leitor.
Agora, ando por aqui http://textosdomanuel.blogspot.com/
memória fracturada
Manuel Braga Serrano
Epifania
Da janela vê a cozinha do apartamento do outro lado da rua. Embora não se distinga em quase nada da sua, é atraído pelo pouco uso que lhe é dada. Desde que se mudou para aquele bairro, o que aconteceu há quase um mês, nunca viu ninguém tomar qualquer refeição nela.
Mário é um marido dos tempos que correm e, como tal, partilha de bom grado as tarefas domésticas com Patrícia, a mulher, advogada em princípio de carreira e com ambições, que quase nunca chega a casa atempo de preparar o jantar.
No fim de tarde em que uma vez mais os seus olhos são atraídos pela cozinha do outro lado da rua, repara com surpresa que estão dois sacos de supermercados pousados na mesa de madeira escura. O cheiro e o som da cebola, do alho e do louro a que retirara a nervura central para não amargar frigindo no azeite fizeram com que, contrariado, desviasse a atenção para o tacho sobre uma das quatro bocas do fogão: a cebola e o alho estavam já transparentes, juntou-lhes o tomate pelado, sem grainhas e picado miudamente, deixando que libertasse o suco por acção do lume lento; retirou uma garrafa de vinho branco do frigorífico, desarrolhou-a, cheirou e refrescou o molho da bolonhesa que já não corria o risco de queimar.
Sempre a mexer o refogado, olha para a outra cozinha, e vê um homem nu diante do frigorifico, de onde retira duas garrafas de cerveja, abre-as e diz qualquer coisa para a porta que dá para um corredor, onde aparece um outro homem também nu.
Mário olha para o tacho, não porque o molho esteja a precisar da sua atenção, mas por estar incomodado por ter surpreendido a intimidade dos dois estranhos. Não precisa de um espelho, o calor que lhe sobe pelo rosto, como se tivesse acabado de trincar inadvertidamente uma malagueta, diz-lhe que está a corar.
Na outra cozinha os homens brindam, sorrindo e olhando-se para dentro dos olhos um do outro. Aproximam-se e enlaçam-se na antecipação de um beijo.
Mário é apanhado de surpresa. O corpo reage perante aquela cena. Engole em seco, mas não é capaz de controlar-se; é traído pelo próprio corpo. Comprimida pelas calças de ganga, uma erecção torna-se dolorosa.
Os homens continuam a beijar-se, as garrafas estão esquecidas em cima da mesa. Mário não percebe o que lhe está a acontecer. Sabe que a descoberta da sexualidade acontece, por vezes, entre rapazes e que tal não quer dizer que venham depois a tornarem-se homossexuais. Ele nunca passou por essa experiências, sempre foi um rapaz de muitas namoradas.
Mas naquele preciso momento imagina-se na outra cozinha; imagina-se até a oferecer as costas a outro homem que se agacha e afasta-lhe as nádegas com as mãos e os dedos perscrutadores, descobrindo-lhe com a língua uma fonte inesperada de prazer; imagina-se depois de pé, com as mãos apoiadas nas ombreiras da porta da cozinha, a respiração suspensa em antecipação; imagina por fim a virilidade do outro homem a entrar nele, fazendo com que a sua bacia se liquefaça e a espinha percorrida por choques eléctricos, sentido o coração em violenta trepidação, os testículos junto da base do pénis , um calor que flui de dentro para fora e a ejaculação, mergulhando o corpo na melancolia e na culpa.
Mário é um marido dos tempos que correm e, como tal, partilha de bom grado as tarefas domésticas com Patrícia, a mulher, advogada em princípio de carreira e com ambições, que quase nunca chega a casa atempo de preparar o jantar.
No fim de tarde em que uma vez mais os seus olhos são atraídos pela cozinha do outro lado da rua, repara com surpresa que estão dois sacos de supermercados pousados na mesa de madeira escura. O cheiro e o som da cebola, do alho e do louro a que retirara a nervura central para não amargar frigindo no azeite fizeram com que, contrariado, desviasse a atenção para o tacho sobre uma das quatro bocas do fogão: a cebola e o alho estavam já transparentes, juntou-lhes o tomate pelado, sem grainhas e picado miudamente, deixando que libertasse o suco por acção do lume lento; retirou uma garrafa de vinho branco do frigorífico, desarrolhou-a, cheirou e refrescou o molho da bolonhesa que já não corria o risco de queimar.
Sempre a mexer o refogado, olha para a outra cozinha, e vê um homem nu diante do frigorifico, de onde retira duas garrafas de cerveja, abre-as e diz qualquer coisa para a porta que dá para um corredor, onde aparece um outro homem também nu.
Mário olha para o tacho, não porque o molho esteja a precisar da sua atenção, mas por estar incomodado por ter surpreendido a intimidade dos dois estranhos. Não precisa de um espelho, o calor que lhe sobe pelo rosto, como se tivesse acabado de trincar inadvertidamente uma malagueta, diz-lhe que está a corar.
Na outra cozinha os homens brindam, sorrindo e olhando-se para dentro dos olhos um do outro. Aproximam-se e enlaçam-se na antecipação de um beijo.
Mário é apanhado de surpresa. O corpo reage perante aquela cena. Engole em seco, mas não é capaz de controlar-se; é traído pelo próprio corpo. Comprimida pelas calças de ganga, uma erecção torna-se dolorosa.
Os homens continuam a beijar-se, as garrafas estão esquecidas em cima da mesa. Mário não percebe o que lhe está a acontecer. Sabe que a descoberta da sexualidade acontece, por vezes, entre rapazes e que tal não quer dizer que venham depois a tornarem-se homossexuais. Ele nunca passou por essa experiências, sempre foi um rapaz de muitas namoradas.
Mas naquele preciso momento imagina-se na outra cozinha; imagina-se até a oferecer as costas a outro homem que se agacha e afasta-lhe as nádegas com as mãos e os dedos perscrutadores, descobrindo-lhe com a língua uma fonte inesperada de prazer; imagina-se depois de pé, com as mãos apoiadas nas ombreiras da porta da cozinha, a respiração suspensa em antecipação; imagina por fim a virilidade do outro homem a entrar nele, fazendo com que a sua bacia se liquefaça e a espinha percorrida por choques eléctricos, sentido o coração em violenta trepidação, os testículos junto da base do pénis , um calor que flui de dentro para fora e a ejaculação, mergulhando o corpo na melancolia e na culpa.
O noivo da minha irmã
-----O estranho desceu do comboio, olhou para um lado e para o outro da gare, onde eu passava a maior parte do meu tempo livre sonhando que entrava numa carruagem com um bilhete na mão para muito longe dali, e pôs-se a caminho. Cosido às empenas das casas baixas que ofereciam uma magra sombra naquela hora de sol quase a pique, persegui-o através do seu percurso pelo macadame faiscante. Com um passo vagaroso e pesado olhava para o número das portas, tentando encontrar o destino. Foi com o peito arfante que vi-o estacar diante da nossa casa, e o sangue começou a martelar-me as têmporas com mais força no momento em que olhou por cima do ombro e viu-me no outro lado da rua que cortava a aldeia ao meio desde a estação até à pequena capela, já fora do monte. Reconheci o interesse e depois o embaraço no seu olhar; soube que viera por minha causa.
-----O homem que ia casar com a minha irmã, e que conhecera enquanto ela estava na Universidade, entrou em nossa casa nesse primeiro dia de verão de há 25 anos. Quando o vi na sala com o braço sobre os ombros dela, convocando todo o esforço para me evitar os olhos, tive a certeza de que viera por minha causa e não por ela.
-----Embora não fosse avisado e se corresse o risco do nome da minha irmã vir a ser falado no adro fascizoide da igreja, os meus pais fizeram questão de que ele pernoitesse sob o nosso tecto durante a sua estadia, oferecendo-lhe o quarto mais afastado do quarto dela e que era o mais próximo do meu, facto que interpretei como mais um facto de que o destino estava a conspirar a meu favor.
-----Eu tinha acabado de fazer 17 anos, e as mulheres não causavam qualquer comoção no meu corpo. Desde os 11 que me esgueirava para o rio sempre que o tempo começava a amornar. Escondido pela muralha formada pelas canas e reforçada pelos ramos dos salgueiros, espiava os rapazes e alguns homens quando ali tomavam banho e esperava que saíssem de dentro da água para os ver, nus e molhados, deitados ao sol sobre as ervas. O meu olhar sobre aqueles corpos era o mesmo com que o noivo da minha irmã me olhou naquele dia há 25 anos.
-----Depois do jantar e do café, enquanto brindavam ao casamento aprazado para daí a três semanas, retirei-me para o meu quarto. Despi-me e olhei-me no espelho de corpo inteiro do guarda-fatos. Nunca antes me olhara assim; o meu corpo já não conservava o mínimo resquício da meninice.
-----Essa foi a primeira da oito noites em que me levantei depois de se terem apagado todas as luzes e me fui deitar na cama do noivo da minha irmã. Esse homem que na véspera da partida, me puxou a cabeça para o seu peito e me disse: «Vem comigo. Sei que queres. Vem comigo. Se voltar, será para casar e tudo isto terá que ser esquecido.» Mas eu não fui, tinha que fazer uma última coisa.
-----«O café hoje amarga que se farta», disse a minha irmã, na manhã a seguir à partida do noivo, que prometera voltar com as suas coisas daí a uma semana. Meteu uma segunda colher de açucar na caneca e bebeu o liquído amargo que momentos depois começaria a corroer-lhe as entranhas.
Caçador furtivo e vadio
A timidez, amaldiçoada desde sempre, tolhera-lhe a vontade e transformara-o num caçador oportunista, rondando os territórios da cidade onde as presas se deixam capturar sem luta.
Se não fosse tão tímido, dizia a si mesmo sempre quando sentia o coração bater mais forte ante a visão de um ou outro homem que pressentisse vital e precioso. Se não fosse tão tímido. Vai a caminho dos 35 e apenas os dedos de uma mão chegam para enumerar as relações que teve. Os dedos de uma mão só, nem um dedo a mais. E se não querem acreditar, o problema é vosso, exclusivamente vosso. De que não sabe a conta é da quantidade de amores unilaterais, esses amores com a timidez sempre presente, esses amores que a timidez não lhe deixou tentar fazer com florescessem. Por mais lágrimas que vertesse, nunca havia semente para irrigar. No trabalho, por exemplo, amou três colegas até as lágrimas forçarem o vómito; no entanto, sabia que a eles tal hipótese nunca lhes passou pela cabeça. A pior das paixões foi com Eduardo, o contabilista. Nunca percebeu o que viu naquele balofo precocemente envelhecido, ainda com o olhar de quem acabou de chegar das berças e sem ter a noção da roupa capaz de lhe disfarçar as imperfeições. É possível que o ar de desamparo e a pachorrice estivessem no centro daquela atracção jamais concretizada, estava convencido, pela sua timidez. Eduardo, com dois convites para provar o seu bacalhau com natas e uns quantos whiskeys a seguir ao jantar, teria sido caçado, mas no trabalho não se atrevia. Não estava interessado que os outros soubessem a verdade, e alguns até o conheciam bem, mas um decoro arcaico aliado a eventuais represálias laborais, tinham-no tornado num caçador furtivo e vadio, que só de noite ia à selva da cidade pensando que nalgum jardim, nalgum cinema para adultos, num bar, numa sauna, talvez mesmo nos transportes públicos, apareceria o homem dos seus sonhos.
Se não fosse tão tímido, tinha consciência disso, um dia iria para a rua e gritaria o que queria sentir. Mas a verdade é que não suporta aqueles que amam indiscretamente.
O homem que preferiu ser invisível
Tal como prometido, disponibilizo de seguida a versão revista, acrescentada e, até ver, definitiva do conto anteriormente crismado com um singelo "anónimo".
****
Há nesta vida certos Homens que parecem ter nascido apenas com a incumbência de se misturarem na multidão e nunca mais se destacarem dela. Zé Luís tentou toda a vida ser invisível e conseguiu tal desígnio, porque o único acto ousado e digno de destaque que voluntariamente se dispôs a pôr em marcha não teve testemunhas.
Filho único, fruto de um casamento que terminou com a morte do pai quando a criança ainda mal se equilibrava nas pernas, Zé Luís era, já aos dezasseis anos, um rapaz que estava convencido de que seria capaz de cultivar o que considerava ser o confortável dom do seu apagamento, desde que se mantivesse calado e quieto perante os outros.
A mãe, que não voltou a casar porque chegou-lhe o curto período do matrimónio para se persuadir de que os homens não são de confiança mas sobretudo pela razão prática de que o passamento do marido não interferiu com o rendimento que lhe permitiria viver desafogadamente até à emancipação do filho e depois até ao resto da vida, via no seu descendente um ser sem qualquer pendor para lhe causar dissabores e, o que lhe oferecia maior consolo, confirmava-lhe que não fora talhado da mesma costela femeeira do marido, esse homem que morreu nos braços de uma das várias amásias que mantinha desde os tempos de solteiro, quer ela tolerava porque ele teve sempre a decência de vir dormir a casa. E quando as amigas, que recebia invariavelmente uma vez por semana para um lanche de chá, bolinhos, licores e má-língua, lhe contavam acerca das estroinices, sarilhos e pecadilhos dos igualmente sempre perdoados filhos, agradecia por Deus lhe ter dado a benesse de ter posto no mundo uma verdadeiro paz de alma, e fazia-se de desentendida perante o olhar irónico das companheiras que, premiando o facto de ser uma anfitriã generosa, tinham a diplomacia de calar o pensamento embaraçante de que o adolescente teria algum retardamento mental, ainda que somente ligeiro, acrescentavam logo de seguida também mentalmente.
Na escola, que frequentava sem se destacar pelas boas razões nem pelas más, Zé Luís era visto pelos rapazes como um alienígena, sempre com o nariz metido num qualquer calhamaço que trazia de casa na mochila para se entreter durante os intervalos das aulas, e as raparigas não viam naquele jovem ossudo, pálido e com o rosto como o pasto verdejante da nada atraente e muito activa acne, quaisquer pontos de interesse, físicos ou intelectuais, para tentarem chamar-lhe a atenção com as habituais técnicas cruéis de jovens fêmeas que sabem muito bem o poder da sua coqueteria junto dos machos com as hormonas em verdadeira revolução. Que o deixassem sossegado a um canto, entretido com um qualquer clássico da literatura que lia convulsivamente mesmo que às vezes não entendesse, era tudo o que desejava quando ouvia a campainha anunciar o fim de mais uma aula e a saída impetuosa dos colegas para as brincadeiras mais ou menos violentas com que pareciam se comprazer.
Só no curto tempo que mediava o desejado momento de adormecer e o despertar contrariado é que Zé Luís permitia que transpusessem a casca de ovo da indiferença perante o mundo. Durante o sono fazia-se acompanhar pelos heróis dos muitos romances lidos e que iam reforçando as paredes do quarto e ameaçavam invadir as restantes divisões da casa, mas, tal como ele, esses companheiros mantinham-se invisíveis.
No entanto, houve uma ocasião em que Zé Luís deixou de ser invisível. Tal acontecimento, para seu aborrecimento, coincidiu com a chegada à escola e à sua turma de um rapaz que viera de Lisboa, porque o pai, delegado do Ministério Público, acabara de ser transferido para o tribunal da pequena vila que sem se dar conta via crescer Zé Luís.
Na sala de aula e também no recreio viu-se sob o olhar esquadrinhador daquele rapaz de ombros largos, robusto, enérgico e com uma extrema velocidade de raciocínio que impressionava colegas e até os professores. Zé Luís não gostou de ter chamado a atenção de alguém e, o que foi pior, não gostou de se sentir percebido pelo estranho. Mas por mais que fizesse para voltar outra vez à reconfortante invisibilidade, mais o outro ficava curioso, tentando conquistar-lhe uma palavra ou um mero movimento de lábios que se assemelhasse a um sorriso. Nada parecia surtir o efeito pretendido, pois Zé Luís havia reforçado as paredes rugosas do casulo em que se refugiara.
Quis o acaso que eles ficassem sentados lado a lado num autocarro que, por ocasião de uma visita de estudo, os levou ao Convento de Mafra e à Boca do Inferno. Novamente sob o escrutínio, ora velado, ora directo, do olhar do seu companheiro, Zé Luís encostou-se à janela, tentando camuflar-se com a paisagem que estava sempre a mudar e que, por isso, não lhe oferecia santuário daquele olhar incomodativo.
Se já não estava muito inclinado a integrar o grupo de alunos que participavam naquela excursão, tendo apenas acedido para não ouvir mais a mãe, a curiosidade do companheiro tornou a viagem um verdadeiro suplício de mártires, que veio a agravar-se já no regresso de Mafra.
Pouco antes da paragem na Boca do Inferno, Zé Luís sentiu com terror e asco a mão do outro pegar na sua e, usando toda a força, empurrá-la para a braguilha intumescida. Mais terror e asco sentiu quando ouviu o companheiro dizer que tinha percebido tudo, que era como ele, que não disfarçasse porque gostava tanto como ele do que estava a agarrar.
Descoberto o segredo e o motivo para desejar tanto a invisibilidade, Zé Luís decidiu-se a agir pela primeira vez na sua vida. O usurpador do seu segredo não poderia ficar impune. Já fora do autocarro, à beira do abismo, quando os colegas e os professores se tinham afastado para as tendas das recordações e eles ficaram sozinhos, surgiu a oportunidade que vinha a aguardar desde que ouvira as palavras reveladoras. Enquanto continuava a ser assediado pelo companheiro que, atrás dele, se roçava, acautelou que não estavam a ser observados, virou-se. Nisto, deu conta de que haviam mudado de posições e o seu acossador encontrava-se então mais próximo do precipício, colocou as mãos no peito do rapaz e empurrou-o. Apanhado de surpresa, nem teve a reacção para gritar durante o breve percurso da trágica queda em direcção às rochas aceradas que as vagas tumultuosas ora punham a descoberto, ora escondiam. Zé Luís afuncou as mãos nos bolsos, passou pelos colegas e professores e entrou no autocarro, onde, no momento em que o motorista punha o veículo em marcha, abriu a boca para espanto de todos, avisando que faltava um aluno.
Depois do alvoroço histérico que se seguiu, sobretudo dos professores que não sabiam como explicar o desaparecimento do aluno e já se viam alvo da acusação de negligência, o corpo acabou por ser encontrado no fundo do abismo, numa posição impossível para alguém que pudesse ainda estar vivo, como acabou por ser confirmado depois dos difíceis trabalhos de resgate. A tragédia chamou a atenção dos jornais que logo no dia seguinte propalaram a versão oficial de que se tratara de um infeliz acidente provocado pela extrema curiosidade e excesso de confiança do rapaz. Durante o breve inquérito policial, Zé Luís foi também ouvido, mas a sua conhecida passividade fez com que ninguém suspeitasse daquele rapaz de olhos colados ao chão e palavra difícil.
Um ano após o sucedido, Zé Luís, aproveitando a visita de que um primo da mãe que abraçara o sacerdócio depois de um mal de amor, anunciou que decidira recolher à clausura introspectiva de um convento. A beatice materna orgulheceu perante o anúncio, recebendo ela o desejo filial com os olhos rasados de uma água feliz. Sem causar estranheza, escolheu depois entrar para uma ordem religiosa que respeitava o voto de silêncio. Mas não se pense que esta decisão terá ficado a dever-se a um qualquer remorso que pedia remissão. Nas vezes em que Zé Luís reviu o sucedido na Boca do Inferno, concluiu sempre que faria tudo de modo idêntico.
Foi um acto que não conheceu consequência, mas como pai que tudo perdoa - e não se fiem naqueles que querem fazer de mim um pai sempre de cinto enrolada em três dedos -, apertei-o no meu peito quando, passados largos anos de clausura, uma última centelha resvalou daquele corpo sem que se ouvisse um sussurro, um suspiro, um queixume, morrendo como preferiu viver.
Filho único, fruto de um casamento que terminou com a morte do pai quando a criança ainda mal se equilibrava nas pernas, Zé Luís era, já aos dezasseis anos, um rapaz que estava convencido de que seria capaz de cultivar o que considerava ser o confortável dom do seu apagamento, desde que se mantivesse calado e quieto perante os outros.
A mãe, que não voltou a casar porque chegou-lhe o curto período do matrimónio para se persuadir de que os homens não são de confiança mas sobretudo pela razão prática de que o passamento do marido não interferiu com o rendimento que lhe permitiria viver desafogadamente até à emancipação do filho e depois até ao resto da vida, via no seu descendente um ser sem qualquer pendor para lhe causar dissabores e, o que lhe oferecia maior consolo, confirmava-lhe que não fora talhado da mesma costela femeeira do marido, esse homem que morreu nos braços de uma das várias amásias que mantinha desde os tempos de solteiro, quer ela tolerava porque ele teve sempre a decência de vir dormir a casa. E quando as amigas, que recebia invariavelmente uma vez por semana para um lanche de chá, bolinhos, licores e má-língua, lhe contavam acerca das estroinices, sarilhos e pecadilhos dos igualmente sempre perdoados filhos, agradecia por Deus lhe ter dado a benesse de ter posto no mundo uma verdadeiro paz de alma, e fazia-se de desentendida perante o olhar irónico das companheiras que, premiando o facto de ser uma anfitriã generosa, tinham a diplomacia de calar o pensamento embaraçante de que o adolescente teria algum retardamento mental, ainda que somente ligeiro, acrescentavam logo de seguida também mentalmente.
Na escola, que frequentava sem se destacar pelas boas razões nem pelas más, Zé Luís era visto pelos rapazes como um alienígena, sempre com o nariz metido num qualquer calhamaço que trazia de casa na mochila para se entreter durante os intervalos das aulas, e as raparigas não viam naquele jovem ossudo, pálido e com o rosto como o pasto verdejante da nada atraente e muito activa acne, quaisquer pontos de interesse, físicos ou intelectuais, para tentarem chamar-lhe a atenção com as habituais técnicas cruéis de jovens fêmeas que sabem muito bem o poder da sua coqueteria junto dos machos com as hormonas em verdadeira revolução. Que o deixassem sossegado a um canto, entretido com um qualquer clássico da literatura que lia convulsivamente mesmo que às vezes não entendesse, era tudo o que desejava quando ouvia a campainha anunciar o fim de mais uma aula e a saída impetuosa dos colegas para as brincadeiras mais ou menos violentas com que pareciam se comprazer.
Só no curto tempo que mediava o desejado momento de adormecer e o despertar contrariado é que Zé Luís permitia que transpusessem a casca de ovo da indiferença perante o mundo. Durante o sono fazia-se acompanhar pelos heróis dos muitos romances lidos e que iam reforçando as paredes do quarto e ameaçavam invadir as restantes divisões da casa, mas, tal como ele, esses companheiros mantinham-se invisíveis.
No entanto, houve uma ocasião em que Zé Luís deixou de ser invisível. Tal acontecimento, para seu aborrecimento, coincidiu com a chegada à escola e à sua turma de um rapaz que viera de Lisboa, porque o pai, delegado do Ministério Público, acabara de ser transferido para o tribunal da pequena vila que sem se dar conta via crescer Zé Luís.
Na sala de aula e também no recreio viu-se sob o olhar esquadrinhador daquele rapaz de ombros largos, robusto, enérgico e com uma extrema velocidade de raciocínio que impressionava colegas e até os professores. Zé Luís não gostou de ter chamado a atenção de alguém e, o que foi pior, não gostou de se sentir percebido pelo estranho. Mas por mais que fizesse para voltar outra vez à reconfortante invisibilidade, mais o outro ficava curioso, tentando conquistar-lhe uma palavra ou um mero movimento de lábios que se assemelhasse a um sorriso. Nada parecia surtir o efeito pretendido, pois Zé Luís havia reforçado as paredes rugosas do casulo em que se refugiara.
Quis o acaso que eles ficassem sentados lado a lado num autocarro que, por ocasião de uma visita de estudo, os levou ao Convento de Mafra e à Boca do Inferno. Novamente sob o escrutínio, ora velado, ora directo, do olhar do seu companheiro, Zé Luís encostou-se à janela, tentando camuflar-se com a paisagem que estava sempre a mudar e que, por isso, não lhe oferecia santuário daquele olhar incomodativo.
Se já não estava muito inclinado a integrar o grupo de alunos que participavam naquela excursão, tendo apenas acedido para não ouvir mais a mãe, a curiosidade do companheiro tornou a viagem um verdadeiro suplício de mártires, que veio a agravar-se já no regresso de Mafra.
Pouco antes da paragem na Boca do Inferno, Zé Luís sentiu com terror e asco a mão do outro pegar na sua e, usando toda a força, empurrá-la para a braguilha intumescida. Mais terror e asco sentiu quando ouviu o companheiro dizer que tinha percebido tudo, que era como ele, que não disfarçasse porque gostava tanto como ele do que estava a agarrar.
Descoberto o segredo e o motivo para desejar tanto a invisibilidade, Zé Luís decidiu-se a agir pela primeira vez na sua vida. O usurpador do seu segredo não poderia ficar impune. Já fora do autocarro, à beira do abismo, quando os colegas e os professores se tinham afastado para as tendas das recordações e eles ficaram sozinhos, surgiu a oportunidade que vinha a aguardar desde que ouvira as palavras reveladoras. Enquanto continuava a ser assediado pelo companheiro que, atrás dele, se roçava, acautelou que não estavam a ser observados, virou-se. Nisto, deu conta de que haviam mudado de posições e o seu acossador encontrava-se então mais próximo do precipício, colocou as mãos no peito do rapaz e empurrou-o. Apanhado de surpresa, nem teve a reacção para gritar durante o breve percurso da trágica queda em direcção às rochas aceradas que as vagas tumultuosas ora punham a descoberto, ora escondiam. Zé Luís afuncou as mãos nos bolsos, passou pelos colegas e professores e entrou no autocarro, onde, no momento em que o motorista punha o veículo em marcha, abriu a boca para espanto de todos, avisando que faltava um aluno.
Depois do alvoroço histérico que se seguiu, sobretudo dos professores que não sabiam como explicar o desaparecimento do aluno e já se viam alvo da acusação de negligência, o corpo acabou por ser encontrado no fundo do abismo, numa posição impossível para alguém que pudesse ainda estar vivo, como acabou por ser confirmado depois dos difíceis trabalhos de resgate. A tragédia chamou a atenção dos jornais que logo no dia seguinte propalaram a versão oficial de que se tratara de um infeliz acidente provocado pela extrema curiosidade e excesso de confiança do rapaz. Durante o breve inquérito policial, Zé Luís foi também ouvido, mas a sua conhecida passividade fez com que ninguém suspeitasse daquele rapaz de olhos colados ao chão e palavra difícil.
Um ano após o sucedido, Zé Luís, aproveitando a visita de que um primo da mãe que abraçara o sacerdócio depois de um mal de amor, anunciou que decidira recolher à clausura introspectiva de um convento. A beatice materna orgulheceu perante o anúncio, recebendo ela o desejo filial com os olhos rasados de uma água feliz. Sem causar estranheza, escolheu depois entrar para uma ordem religiosa que respeitava o voto de silêncio. Mas não se pense que esta decisão terá ficado a dever-se a um qualquer remorso que pedia remissão. Nas vezes em que Zé Luís reviu o sucedido na Boca do Inferno, concluiu sempre que faria tudo de modo idêntico.
Foi um acto que não conheceu consequência, mas como pai que tudo perdoa - e não se fiem naqueles que querem fazer de mim um pai sempre de cinto enrolada em três dedos -, apertei-o no meu peito quando, passados largos anos de clausura, uma última centelha resvalou daquele corpo sem que se ouvisse um sussurro, um suspiro, um queixume, morrendo como preferiu viver.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
Acerca de mim
- Manuel Braga Serrano
- Nasceu em 1974. É jornalista da imprensa regional, actualmente desempregado Vive em Palmela.
Arquivo do blogue
- 02/15 - 02/22 (1)
- 02/08 - 02/15 (1)
- 01/25 - 02/01 (1)
- 01/18 - 01/25 (4)
- 01/04 - 01/11 (4)
- 12/28 - 01/04 (6)
- 12/21 - 12/28 (7)
- 12/14 - 12/21 (9)
- 12/07 - 12/14 (8)
- 11/30 - 12/07 (7)
- 11/23 - 11/30 (10)
- 11/16 - 11/23 (6)
- 11/09 - 11/16 (6)
- 11/02 - 11/09 (4)
- 10/26 - 11/02 (9)
- 10/19 - 10/26 (7)
- 10/12 - 10/19 (12)
- 10/05 - 10/12 (4)
- 09/28 - 10/05 (15)
- 09/21 - 09/28 (22)
- 09/14 - 09/21 (10)
- 09/07 - 09/14 (7)
- 08/31 - 09/07 (8)
- 08/24 - 08/31 (2)
- 08/17 - 08/24 (3)
- 08/10 - 08/17 (2)
- 08/03 - 08/10 (1)
- 07/20 - 07/27 (1)
- 07/13 - 07/20 (2)
- 07/06 - 07/13 (8)
- 06/29 - 07/06 (4)
- 06/08 - 06/15 (4)
- 06/01 - 06/08 (4)
- 05/25 - 06/01 (7)
- 05/18 - 05/25 (9)
- 05/11 - 05/18 (11)
- 05/04 - 05/11 (8)
- 04/27 - 05/04 (6)
- 04/20 - 04/27 (5)
- 04/13 - 04/20 (13)
- 04/06 - 04/13 (10)
- 03/30 - 04/06 (5)
- 03/23 - 03/30 (3)
- 03/16 - 03/23 (2)
- 03/09 - 03/16 (1)
- 03/02 - 03/09 (2)
- 01/06 - 01/13 (1)
- 12/30 - 01/06 (1)
- 12/23 - 12/30 (7)
- 12/16 - 12/23 (6)
- 12/09 - 12/16 (7)
- 12/02 - 12/09 (11)
- 11/25 - 12/02 (17)
- 11/18 - 11/25 (8)
- 11/11 - 11/18 (7)
- 11/04 - 11/11 (6)
- 10/28 - 11/04 (7)
- 10/21 - 10/28 (6)
- 10/14 - 10/21 (8)
- 10/07 - 10/14 (8)
- 09/30 - 10/07 (3)
- 09/23 - 09/30 (1)
- 09/16 - 09/23 (2)
- 09/09 - 09/16 (6)
- 09/02 - 09/09 (9)
- 08/26 - 09/02 (2)
- 08/12 - 08/19 (1)
- 08/05 - 08/12 (4)
- 07/29 - 08/05 (2)
- 07/22 - 07/29 (2)